sábado, 29 de outubro de 2011

O céu aberto

O céu aberto,
E um bom vento,
E o resto passa,
O resto passará,
Pois tanto aqui,
Como ali e acolá,
É passageiro do agora,
Que passa aqui,
Que passará acolá,
Portanto sim,
O resto passa,
O resto passará.

Já todos os artistas

Já todos os artistas
E por artistas quero dizer
Poetas e poetisas
Pois tudo o resto
É uma variação deste imenso,
Dissertaram e descreveram
E analisaram e escreveram
E suspiraram sobre,
Ou sonharam com,
Com e sobre o Amor,
Logo pouparei este coração
(Poupá-lo-ei para outra sazão)
Que o sente a cada esvoaçar,
A cada alvorado despertar.
Não escreverei sobre epopeias trágicas
Ou sequer das estórias fantásticas
Nem de amanheceres ou poentes
Ou mesmo de crédulos ou descrentes
Nem sobre a temível guerra das flores
Nem das advindas belezas ou dores
Nem tão pouco dos voos pelo aberto espaço
Ou das flores beijadas e trazidas no regaço.
Sobre isso já mil milhões escreveram,
Já sentiram e até já o souberam,
Parecido ou diferente de mim
Em frases negativas
Ou afirmando-se em cada sim,
Em fugas elusivas ora em focadas objectivas
Tantos e tão, tão bem que é certo
Que nada tenho a acrescentar
Pois já os ouvi tão, tão perto
E até mesmo ao longe a soluçar
Por amor ido ou almejado
Ou ainda por alcançar,
Em prados verdes
Ou com o coração quebrado.
Já sei as mesmas estórias,
Vi a glória do sangue derramado
E contudo, como o mundo
Num segundo é inteiramente…
Osculado.
Sim,
Sinto-me amado
Pela luz do sol
(Posso mesmo dizer adornado)
E pela bruma escura
Pois o ver é muitos e em súmula,
Sou beijado pelo toque da chuva que
Por vezes minhas asas coloridas enluva,
Portanto,
Não escreverei sobre essas tais coisas,
Escreverei antes sobre a minha caneta
Que é laranja e azul,
Que somente eu conheço,
Que conhece os meus voos
Melhor do que eu próprio
E do que eu sei sobre as coisas.
Sim, gosto desta caneta azul e laranja,
Que ela me transcreva o Mundo,
Que me concretize os abracadabras
À passagem do que foi segundo
E o imortalize através de palavras.